Etna: um terroir em ebulição

Por: Fabiana Gonçalves | @escrivinhos

Na ilha da Sicília, ao sul da Itália, encontra-se um dos terroirs mais fascinantes e extremos do mundo: as encostas do Monte Etna — o vulcão ativo mais alto da Europa, com quase 3.500 metros de altitude. As erupções constantes e o solo vulcânico do Etna criam um ambiente singular, onde nascem vinhos únicos e de personalidade marcante.

A viticultura no Etna é antiga, com raízes que remontam ao período grego. Mas foi nas últimas décadas que a região ganhou destaque internacional, impulsionada por produtores que apostaram no potencial da montanha para criar vinhos elegantes, frescos e longevos.

Mas afinal, o que torna os vinhos do Etna tão especiais?

Em primeiro lugar, o solo vulcânico. As cinzas e lavas do Etna criam um solo negro altamente mineral, que transmite complexidade e caráter aos vinhos.

Outro fator importante é a altitude. As vinhas em “terraços de pedra” (chamados muretti a secco) podem chegar a mil metros acima do nível do mar, o que favorece acidez natural, frescor e aromas vibrantes aos vinhos.

A influência do mar Mediterrâneo, somada à grande amplitude térmica entre o dia e a noite, também ajuda a preservar a delicadeza das uvas.

Devido à forma cônica do Etna e às diferentes exposições solares, cada parcela tem um microclima próprio, quase como “crus” não oficiais.

Principais uvas e estilos

Estrela da região, a uva tinta Nerello Mascalese dá origem a vinhos elegantes, com notas de frutas vermelhas, ervas secas, especiarias e um toque terroso. Já a Nerello Cappuccio é geralmente usada em cortes com a Nerello Mascalese, acrescentando cor e suavidade.

Em relação às uvas brancas, a Carricante é uma variedade autóctone que origina vinhos minerais, cítricos, com excelente acidez e potencial de guarda.

Etna DOC

Criada em 1968, a Denominazione di Origine Controllata Etna (Etna DOC) foi a primeira DOC da Sicília e uma das mais respeitadas da Itália. Ela abrange uma área ao redor do vulcão, principalmente nos lados norte, leste e sul, com vinhedos plantados em altitudes que variam de 400 a 1.100 metros.

A face norte do Etna (ao redor da cidade de Randazzo) é a mais valorizada para tintos de alta qualidade, devido à sua altitude e clima mais fresco. As encostas orientais, influenciadas pela umidade do mar Jônico, são ótimas para vinhos brancos frescos e aromáticos.

A Etna DOC regula tanto vinhos tintos, rosés quanto brancos. Os vinhos devem ser elaborados com uvas autóctones, e respeitam as seguintes regras:

Etna Rosso (tinto):

  • Mínimo de 80% de Nerello Mascalese
  • Até 20% de Nerello Cappuccio
  • Algumas versões de excelência usam 100% Nerello Mascalese
  • Podem ser jovens ou envelhecidos, com potencial de guarda notável (inclusive versões “Riserva” com envelhecimento mínimo de 4 anos)

Etna Bianco (branco):

  • Mínimo de 60% de Carricante
  • Complementado por Catarratto e, ocasionalmente, outras uvas locais brancas
  • O Etna Bianco Superiore é exclusivo da área de Milo, e deve ter mínimo de 80% de Carricante

Etna Rosato (rosé):

  • Feito com as mesmas uvas dos tintos (Nerello Mascalese + Nerello Cappuccio), em vinificação curta com as cascas

Ascenção da região

Nos últimos 20 anos, o Etna passou de uma região esquecida a uma das mais cultuadas da Itália, sendo chamada por críticos internacionais de “a Borgonha do Mediterrâneo”. Produtores como Benanti, Graci, Tenuta delle Terre Nere, Passopisciaro, Cussumano e Frank Cornelissen colocaram os vinhos do Etna entre os mais prestigiados do país.

Se você ainda não provou, sugiro experimentar um vinho de solo vulcânico e descobrir toda a força da natureza na taça.

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