Por: Fabiana Gonçalves | @escrivinhos
Também conhecida como poda invertida, a técnica da dupla poda é uma prática vitícola desenvolvida no Brasil, especialmente adaptada às condições climáticas da região Sudeste (como o interior de Minas Gerais e São Paulo) e da Chapada Diamantina, na Bahia. Essa técnica tem o objetivo de mudar o ciclo natural da videira, permitindo que a colheita ocorra no inverno – época mais seca – e não no verão, que costuma ser chuvoso e úmido, o que prejudica a qualidade das uvas viníferas.
A técnica da dupla poda funciona da seguinte maneira:
A videira é podada duas vezes ao ano, de forma estratégica. A primeira poda (de formação ou poda verde) é realizada no verão (geralmente em janeiro ou fevereiro). Os cachos que seriam colhidos no verão são removidos e isso direciona a planta a crescer sem frutificar naquele momento. O objetivo é preparar a planta para frutificar no inverno.
A segunda poda (de produção) é realizada no outono (geralmente entre junho e julho). Ela promove a brotação dos ramos férteis, que darão origem aos cachos.
A colheita ocorre no inverno (de agosto a setembro), época de clima seco e com maior amplitude térmica, ideal para amadurecimento de uvas com mais concentração de açúcares, acidez equilibrada e compostos fenólicos.
VANTAGENS
A técnica de poda invertida melhora a qualidade das uvas, dando a elas cascas mais grossas, maior concentração de açúcar e taninos e acidez mais equilibrada. Também reduz doenças fúngicas por ocorrer na estação seca, quando há menos incidência de doenças como míldio e botrytis.
Além disso, a técnica permite produção de vinhos mais estruturados e elegantes, com mais tipicidade e potencial de guarda. Ainda amplia as possibilidades de produção de vinhos finos nas regiões tropicais e subtropicais.
VINHOS DE INVERNO
A técnica de dupla poda deu origem à categoria chamada “Vinhos de Inverno” ou “Vinhos da Safra de Inverno”, muito valorizada em regiões como Três Corações, Andradas e Caldas (MG), Espírito Santo do Pinhal e São Bento do Sapucaí (SP), além da Chapada Diamantina (BA).
Algumas vinícolas que hoje usam a dupla poda:
- Guaspari – Espírito Santo do Pinhal (SP) | Referência em Syrah de clima tropical de altitude.
- Maria Maria – Três Corações (MG) | Projeto ligado ao enólogo Rodrigo Pita e à Fazenda Capetinga que faz vinhos com ótima tipicidade.
- Luiz Porto – Cordislândia (MG) | Também aposta na Syrah e na técnica da dupla poda.
- Casa Geraldo – Andradas (MG) | Uma das pioneiras da viticultura de inverno em Minas.
- Stella Valentino – São Bento do Sapucaí (SP) | Vinícola boutique localizada em altitude elevada que produz vinhos autorais.
- UVVA – Mucugê (BA) | Localizada a 1.150 metros de altitude, cultiva variedades como Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e Syrah.
- Vaz – Morro do Chapéu (BA) | Adota a dupla poda para otimizar a produção de suas uvas viníferas e produzir vinhos de excelência.
UVAS
As variedades que mais se beneficiam da dupla poda são as seguintes:
- Syrah – A mais emblemática; desenvolve muito bem em clima seco e quente com boa amplitude térmica.
- Cabernet Franc – Apresenta frescor e elegância em versões de inverno.
- Viognier e Sauvignon Blanc – Mostram perfil aromático intenso e frescor, mesmo em regiões mais quentes.
- Tempranillo, Merlot, e Malbec – Também vem sendo testadas com bons resultados.
INOVAÇÃO BRASILEIRA
A técnica é uma prática praticamente exclusiva da viticultura tropical e subtropical brasileira. Não há registro de uso sistemático e bem-sucedido da técnica em outros países.
Em países produtores tradicionais (como França, Itália, Argentina, Chile, EUA), o ciclo da videira já se encaixa naturalmente no período seco e ameno de verão, não exigindo essa manipulação.
Nos países de clima temperado, o inverno é muito rigoroso (com geadas e neve), impedindo o cultivo ativo da videira nesse período.
Já no Brasil, especialmente nas áreas de altitude do Sudeste, o inverno é seco e com temperaturas moderadas — o que viabiliza a maturação da uva com sanidade e qualidade após a poda de produção.
DUAS PODAS NO MUNDO
Algumas regiões do mundo fazem podas em dois momentos, mas com objetivos diferentes do Brasil:
A chamada poda verde é utilizada na Europa e EUA para controlar o crescimento vegetativo, exposição ao sol e rendimento — não para inverter o ciclo. Já a poda de inverno é tradicional nos países frios, feita durante a dormência da planta para preparar a produção do próximo ano.
Regiões tropicais fora do Brasil, como a Índia, fazem duas colheitas por ano, mas isso é mais comum para uvas de mesa ou vinho de menor qualidade, e sem o refinamento da técnica brasileira.